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quarta-feira, 2 de abril de 2014

O amor possível de Drummond

Greta Garbo
Após o cinema, a literatura nunca mais foi a mesma. Se, num primeiro momento, muito da práxis literária – e teatral e circense – foi apropriada pelo cinema, após isso a literatura voltou-se para o telão com olhos gulosos, e muitos temeram que ela se perdesse nele como uma Alice através do espelho. Nos grandes centros de produção cinematográfica mundial, a profissão de escritor ganhou um novo nicho, o de roteirista, e não foram poucos os que escreveram com o objetivo de ver seus livros filmados, suprema glória e consagração de um ficcionista do século XX.

A incorporação da literatura nas artes cinematográficas durante esse século foi profunda, ampla e em quantidade, e disso resultou que, a partir de um certo instante, o fluxo se invertesse, com a literatura passando a incorporar antropofagicamente temas, técnicas, formas, mitos, elementos de linguagem desenvolvidos estritamente pelo cinema.

Com o evento do cinema, a humanidade passou a receber nos olhos imagens nunca antes sequer sonhadas, e essas imagens se ofereceram a um público sempre crescente, em quantidades espetaculares, a partir da instauração de uma indústria vigorosa e de um circuito exibidor amplo e distribuído por todo o mundo.

Aos escritores, poetas ou prosadores, por sua vez, o cinema se ofereceu como um manancial inesgotável de possibilidades temáticas, composicionais, e ainda como laboratório de técnicas, muitas das quais por eles experimentadas em seus textos em estado bruto ou traduzidas com adaptações para as necessidades expressivas das artes literárias. Bem, que Holywood empregou uma grande quantidade de escritores consagrados para adaptar  para o cinema seus - deles - próprios livros, todos o sabem.

Uma dos mais óbvios empréstimos feitos pela literatura ao cinema diz respeito às divas. Escritores e mais escritores, mergulhados na sala escura, sentiram seus corações dispararem a cada entrada em cena de, digamos como exemplo, Greta Garbo.

Esse tipo cruel de mulher insubmissa, dominadora, fria etc. etc. etc., causadora de estranheza a um público masculino embalado por delírios machistas, deu ensejo a mais de um texto em prosa ou verso, podem crer.

Para ficar no Brasil, falemos de Drummond. Na década de 1980 o Arquivo Público Mineiro, publicou um volume de crônicas de Drummond, inéditas em livro, do período 1930-1936. Estou certo de que a iniciativa coube a Hélio Gravatá – quem descobrir que errei, pode falar mal, aliás, quem quiser falar mal, pode fazê-lo, mesmo que eu não tenha me enganado.

O livro é muito bem feito, com ilustrações de época que são realmente muito sugestivas. Numa dessas crônicas, o poeta descompõe as formas maiúsculas de Greta Garbo, mas logo se vê que ele a elogia pelo inverso, o que o final da crônica não deixa escapar. Ela completaria 100 anos em 2005, ela a atriz, não a crônica.

Não é a única referência de Drummond nem a Garbo nem ao cinema. Aliás, em Confissões de Minas, seu primeiro livro em prosa, numa das crônicas dedicadas a reminiscências da infância, o poeta lamenta o impacto da chegada do cinema a sua Itabira do Mato Dentro, evento que, a depreender da lamentação do poeta, teria liquidado o poético teatro “amador” que lá se realizava.

As relações entre cinema e literatura, por óbvias, têm sido bastante estudadas, principalmente no âmbito do cinema. Os grandes festivais sempre dedicam espaço ao assunto – embora o inverso nem sempre seja verdade: pouquíssimos congressos literários dedicam ao cinema igual reverência.

Nos últimos tempos tenho feito o inverso: tenho procurado localizar elementos do cinema apropriados devida ou indevidamente pela literatura. Algumas incorporações saltam aos olhos, como a aqui citada, sem maiores dificuldades, outras, porém, são de observação difícil – e de comprovação ainda mais, pois dizem respeito a processos sutis, relacionados à produção de sentidos. Para se ter uma idéia, Hauser considera que o flash Back, técnica eminente cinematográfica, foi inventada por... Proust, de Em busca do tempo perdido.Voltarei a esse assunto futuramente.

Termino este artigo com Drummond e Garbo.

É muito significativo que em suas primeiras crônicas o poeta mineiro elogie canhestramente – vai, Carlos, ser gauche na vida – a diva de Ana Karenina. Porém é ainda mais significativo e comovente que em seu último livro volte à atriz sueca, num poema nada enigmático de amor sincero e longevo à sétima arte e à diva de sua mocidade.

FONTE: Novo Cineclubismo.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Programação do 2o. Semestre: Viva, voltamos da férias!

R. Augusta, 1239 - Cj. 13 - São Paulo - SP


Caros amigos:

O Cineclube Baixa Augusta volta das férias de julho com uma bela programação, relativa à segunda parte do ciclo Cinema e Literatura, cujo título é dedicado a nosso amigo, o polêmico Antônio Gouveia Jr.

O primeiro semestre versou sobre adaptações cinematográficas de obras relevantes de nosso teatro. No segundo semestre, a programação contempla romances, novelas, contos, crônicas e poesia que chegaram às nossas telas.

Como sempre, numa quinta, estudaremos com nossos olhos, mentes e corações as obras, na quinta posterior, realizaremos fórum de trocas culturais. Porém neste semestre, os fóruns, além de discutir o filme da semana anterior, terá sempre uma sessão “pinga-fogo” com profissionais, artistas, técnicos ou intelectuais envolvidos com lides cinematográficas ou simpatizantes.

Os fóruns são filmados pelo impagável João Luís de Brito Neto, e depois viram documentário à disposição de todos, mediante o pagamento de módicas quantias pecuniárias. Aliás, o epíteto “impagável” de JB se deve ao fato de que o pessoal enrola e não paga seus préstimos devidamente. Tudo bem, ele diz, ainda bem, dizemos nós.

Compareçam em massa e, não querendo entrar para a categoria “impagável”, tragam uns parcos dinheirinhos para a gente ajudar na manutenção da sala do Centro Cineclubista que, como não é Centro Alquimístico, ainda não conseguiu converter cobranças e ouro, uma vez que o senhorio não aceita tornar-se impagável, e não adianta dizer a ele que nosso filme predileto é “Brasileiro, profissão esperança”.

O primeiro do semestre é Budapeste. Leia o quadro as seguir, com toda a programação do semestre.

Viva o cinema brasileiro! Viva o cineclubismo brasileiro!

Baixa Augusta – Ciclo Antônio Gouveia Jr. de Cinema e Literatura



Ago (2000)
Dia
Evento
4
Budapeste (2010)
Valter Carvalho
11
Mário DJ: A produção digital hoje.
18

Policarpo Quaresma, herói do Brasil (1998)
Paulo Thiago
25
Maristela: A mulher na produção cinematográfica hoje.
Set (1990)
Dia
Evento
1
FILME SURPRESA
8
Diomédio Piskator: Memórias da Boca.
15
Memórias póstumas de Brás Cubas (2000)
André Clotzel
22
Diogo Gomes: Cinema e literatura.
29
A ostra e o vento
Walter Lima Jr.
Out (1980)
Dia
Evento
6
Grupo Ô de Casa: Música e Cinema
13
A hora da estrela (1985)
Susana Amaral
20
João Luís: “Era uma vez no meu bairro”
27
Sete dias de agonia (1982)
Denoy de Oliveira
Nov (1970)
Dia
Evento
3
Clery Cunha: Cidade Tiradentes nas telas do cinema.
10
Tendas dos milagres (1977)
Nelson Pereira dos Santos
17
Marcelo Fontana: Presença da África.
24
Macunaíma (1969)
Joaquim Pedro de Andrade
Dez (1960)
Dia
Evento
1
Miguel Batista: Produção popular.
8
Vidas Secas (1962)
Nelson Pereira dos Santos
15
Encontro cineclubista de encerramento anual.




terça-feira, 28 de junho de 2011

Tempos de Paz, de Daniel Filho

Filme de Daniel Filho estrelado por Tony Ramos e Dan Stulbach, Tempos de Paz narra o tete-a-tete entre um imigrante polonês e um policial torturador ao final da II Guerra e nos estertores do Estado Novo getulista.

O filme é baseado na peça teatral “Novas Diretrizes em Tempos de Paz”, de Bosco Brasil, que também assina o roteiro do filme. A peça recebeu os prêmios Shell (Autor, Ator e Iluminação) e APAC (Associação Paulista dos Críticos de Arte - Autor e Ator).

Sociedade e política recebem novamente leitura do cinema brasileiro que, pela ótica de Daniel Filho, técnicos, atores e atrizes, ilumina na tela dobras sombrias da história do Brasil.

Ficha Técnica
Título original: Tempos de Paz
Gênero: Drama
Duração: 82 min.
Lançamento (Brasil): 2009
Distribuição: Downtown Filmes
Direção: Daniel Filho
Assistente de direção: Cris D'amato, \Cininha De Paula, Bruno Garotti
Roteiro: Bosco Brasil
Produção: Daniel Filho
Direção de produção: Sylvia Ramos
Produção executiva: Julio Uchôa, Claudia Bejarano
Co-produção: Globo Filmes, Lereby Produções, Downtown Filmes
Som: Zezé d'Alice
Fotografia: Tuca Moraes
Desenho de produção: Engênia Maakaroun
Direção de Arte: Cristina Cirne, Marcos Flaksman, Odair Zani
Figurino: Antônio Araújo, Marilia Carneiro
Edição: Diana Vasconcellos
Maquiagem: Rose Verçosa
Elenco

Tony Ramos (Segismundo), Dan Stulbach (Clausewitz), Daniel Filho (Dr. Penna), Louise Cardoso (Clarissa), Ailton Graça (Honório), Anselmo Vasconcelos (João), Leonardo Thierry (Capitão do Navio), Maria Maya (Enfermeira), Iafa Britz (Emigrante), Bernardo Jablonski (Professor Mesquita), Felipe Martins (Ratinho), Camila Lins (Criança Húngara), Pablo Sanábio (Oswaldo), Breno de Filippo (Policial 2 Imigração), Ewa Maria Parszewska (Havah), Marcos Flaksman (Padrinho), Liliane Mija (Passageira Romena), Atila Balazs Szemeredi (Passageiro Húngaro), Alexandre Bordalo (Barbosa (Motorista), Zezé d'Alice (Florinda), Carlos Henrique Case (Oficial 3), Nilvan Santos (Castilho (Diretor do Presídio), Ewa Stulbach (Senhora Ruiva), Ricardo Marecos (Policial 1 Imigração), Ion Muresanu (Senhor Romeno).

*             *             *

Caros Cineclubistas:

Na próxima quinta-feira, 30 de junho,  às mesmas indefectíveis 20 horas, assistiremos e estudaremos com nossos olhos, ouvidos, sistema nervoso central e coração – a parte mais importante desse sistema – ao último filme do semestre, Tempos de Paz, de Daniel Filho, com Tony Ramos e Dan Stulbach.

Esse filme, cujo debate ocorre na semana posterior, primeira quinta de julho, no mesmo bat-horário e mesmo bat-lugar, encerra a primeira parte, dedicada ao teatro, do nosso ciclo Antônio Gouveia Jr. de Cinema de Literatura brasileiras. Os filmes cobriram 8 décadas de nossa produção teatral e cinematográfica, de 1940 a 2000. Os debates, documentados em vídeo por João Luís de Brito Neto, constituem um verdadeiro curso de cinema brasileiro pela ótica revolucionário do cineclubismo.

Essa primeira parte do ciclo é uma vitória do cinema brasileiro que, por canais cineclubistas, vai fazendo sua história de resistência  a despeito das estatísticas acima de quaisquer suspeitas da ANCINE, para a qual o público só existe se pagar bilhete em cinema de shopping center. Aliás, os dirigentes da dessa Agência deveriam ter coragem de propor de vez a mudança de nome para Agência Nacional de Cinema DE MERCADO, uma vez que é disso de que se trata.

Nossas sessões de quintas-feiras, seguidas de debates nas quintas posteriores, são um movimento contínuo, firme, amoroso de resistência. Por isso, é importante que essa primeira parte do Ciclo seja encerrada com sala cheia, e que o de bate na quinta posterior, 7 de julho, seja um ato convicto em defesa do cinema brasileiro. Nesse caso, sala lotada faz diferença, pois indica a força de nossa decisão.

Por isso os que organizamos o Cineclube Baixa Augusta convidamos todos à nossa sessão de quinta próxima, não apenas para assistir a um filme da recente cinematografia brasileira, Tempos de Paz, mas para emprestar seu apoio à nossa luta em defesa do cinema brasileiro e contra o imperialismo cultural, que trata nosso espaço simbólico audiovisual como território invadido e ocupado, como um backyard, literalmente quintal dos fundos de seus hambúrgueres culturais, cheios de gordura e calorias, mas sem “sustança” e sabor verdadeiros.

Venha, traga os amigos e empreste seu apoio à luta pela expulsão das  tropas invasoras de parte do nosso território simbólico audiovisual, afinal, 90% de ocupação é um pouco demais, não acham?


Viva o cinemba brasileiro!
Viva o cineclubismo brasileiro!
Viva o nosso amigo Antônio Gouveia Jr.

CINECLUBE BAIXA AUGUSTA

Centro Cineclubista de São Paulo
R. Augusta, 1239 – Cj. 13


*     *     *

PROGRAMAÇÃO - PRIMEIRO SEMESTRE
A PARTIR DE MARÇO - 2011
Sempre às quintas-feiras, 20 horas.


MÊS
DIA
FILME
ANO
DIRETOR
PEÇA
MARÇO
3
O ébrio
1946
Gilda Abreu
O ébrio, Peça de circo de Vicente Celestino
10
Fórum "O Ébrio"
17
Terra é sempre terra
1951
Tom Payne
Paiol velho, de Abílio Pereira de Almeida
24
Fórum "Terra é sempre terra"
31
A falecida
1965
Leon Hirszman
A falecida de, Nelson Rodrigues
ABRIL
7
Fórum "A falecida"
14
A compadecida
1969
George Jonas
O auto da Copadecida, de Ariano Suassuna
28
Fórum "A compadecia"
MAIO
5
Dois perdidos numa noite suja
1971
Braz Chediak
Dois perdidos numa noite suja, de Plínio Marcos

19

Fórum "Dois perdidos numa noite suja"
26

À flor da pele

1976

Fco. Ramalho

À flor da pele, de Consulelo de Castro
JUNHO
2
Fórum "À flor da pele"
9
Ópera do malandro
1986
Ruy Gyerra
Ópera do Malando, de Chico Buarque de Holanda
16
Fórum "Ópera do malandro"
30
Tempos de paz
2009
Daniel Filho
Novas diretrizes em tempo de paz, Bosco Brasil
JULHO
7
Fórum "Tempos de paz" e encerramento do 1o. semestre

OS FÓRUNS, sempre nas quintas-feiras posteriores às exibições, têm formato criativo. Além de debate sobre filme, peça adaptada e respectivos diretores e dramaturgos, sempre se contará com presença de atores, técnicos e pesquisadores. Nos fóruns orrerão também exposição de objetos artísticos, recitais poéticos e espetáculos musicais relativos à trilha sonora do filme ou da peça. Nos fóruns também haverá lugar para feira cultural, cujo tema relaciona-se ao filme da semana.

Com isso, o Cineclube Baixa Augusta e o Centro Cineclubista de São Paulo querem articular artistas e agentes culturais em torno do cinema brasileiro e da militância cineclubista.

VIVA O ARTISTA BRASILEIRO!
VIVA O CINEMA BRASILEIRO!
VIVA O MOVIMENTO CINECLUBISTA BRASILEIRO!