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quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Amor à flor da pele, de Wong Kar Wai

Amor à Flor da Pele (Fa yeung nin wa) - 2000. Escrito, dirigido e produzido por Wong Kar Wai. Direção de Fotografia de Christopher Doyle, Pung-Leung Kwan e Ping Bin Lee. Música Original de Michael Galasso e Shigeru Umebayashi. Block 2 Pictures, Jet Tone Production e Paradis Films / Hong Kong | França.
27 DE SETEMBRO, 20 HORAS
O olhar cineclubista do Baixa Augusta penetra esta fechadura:
Em Amor à Flor da Pele (2000), o cineasta chinês Wong Kar Wai provou que é possível retratar os efeitos de uma paixão arrebatadora através da linguagem cinematográfica, sem que para isso seja necessário apelar para o excesso de cenas de sexo, ou de nudez. Todos os aspectos do filme, incluindo trilha sonora, fotografia, enquadramentos, figurinos e direção de arte, colaboram para tal e o resultado é simplesmente impressionante, uma obra de arte tão bela quanto melancólica e tão fascinante quanto a própria sensação de estar apaixonado; trata-se de um filme esteticamente belo, dramaticamente consistente e muito bem sucedido em sua proposta. Sua história gira em torno de um casal que vive uma paixão impossível de se concretizar, devido ao fato de que ambos são casados e temem transpor as barreiras morais que se levantam em torna da situação.

Na trama, ainda que resistam em assumir aquilo que sentem um pelo outro, o jornalista Chow Mo-wan (Tony Leung Chiu Wai) e a secretaria Su Li-zhen (Maggie Cheung) acabam alimentando um sentimento que só se intensifica no decorrer da trama, a falta de contato físico e a não consumação deste amor parece aumentar ainda mais a ardente paixão que sentem um pelo outro. O roteiro explora tal situação de uma forma maravilhosa, todo o desenvolvimento da história é sustentado pelos curtos passos que cada um dos personagens tentam dar em direção ao outro, passos estes que ora parecem não levar a lugar nenhum, ora aparentam distanciá-los ainda mais. Ao retratar este sentimento reprimido, o filme levanta diversas questões morais, principalmente acerca do adultério e da confiança depositada em outrem. A trama nos leva a questionar onde de fato começam a traição e a culpa daqueles que a cometem. 


Chow e Su Li se mudaram no mesmo dia para um prédio decadente localizado em um subúrbio de Hong Kong, ambos, com seus respectivos cônjuges, alugaram quartos em minúsculos apartamentos. A pobreza do local nos salta aos olhos já nas primeiras cenas do filme. Paredes descascadas, instalações elétricas precárias e a claustrofobia proporcionada pela falta de espaço denotam alguns dos problemas sociais que a cidade/estado já vivenciava no início da década de 60, época em que o filme se passa. A vivência neste ambiente opressivo, a carência afetiva e a constante ausência de seus parceiros fazem com que Chow e Su Li acabem se aproximando um do outro e a cumplicidade que encontram nesta amizade aparenta aliviar as feridas provocadas pelos seus casamentos, que já estavam em crise antes mesmo de se conhecerem. 


O efeito do choque entre tradição e contemporaneidade está evidente na trama, sendo potencializado pelo dilema criado em torno do relacionamento entre os personagens. O tradicionalismo da cultura oriental se manifesta através de pequenos costumes, dos tabus preservados e de outros traços presentes na vida cotidiana. Já os reflexos da pós-modernidade estão presentes na subversão de cada um desses elementos e no vazio existencial experimentado pelos protagonistas, que seria ao meu ver uma evidência do distanciamento emocional e da fragilidade dos laços e das relações que tentam construir. As reflexões fomentadas pelo filme nascem desta dicotomia entre passado e presente, mas também das questões morais que envolvem os personagens, questões estas que seriam de certa forma atemporais.
 

O decorrer do tempo tem uma importância enorme na trama, em diversas passagens são feitos closesem relógios e isso não é por acaso, a ideia é justamente mostrar que toda a ambientação está localizada em uma espécie de quebra temporal, onde o passado se encontra com o presente e o futuro, exercendo juntos efeitos sobre a vida dos personagens. O ritmo lento que o filme adota em seu desenvolvimento reforça esta ideia, é interessante a percepção de que não é possível saber ao certo quanto tempo se passou desde que os personagens se conheceram, podem ter sido dias, semanas ou até mesmo meses ou anos. A montagem ajuda a desconstruir a noção do decorrer do tempo, sem que haja para tal a necessidade de 'quebras' na narrativa, isso torna o desenrolar da trama um fluxo contínuo e ininterrupto, no qual predominam o desejo e paixão que o longa retrata tão bem através de seus elementos técnicos e artísticos.


Amor à Flor da Pele beira à perfeição em cada um de seus aspectos, sua trilha sonora evoca nostalgia, melancolia e principalmente sensualidade. A fotografia, aliada à beleza dos figurinos e da direção de arte, constrói planos de um lirismo tão estonteante, que torna cada fotograma uma obra de arte individual. Ao olhar para o filme como um todo, concluo que Kar Wai Wong fez aqui uma obra-prima, que eu facilmente incluiria em minha lista pessoal dos mais belos filmes das últimas décadas. Terminei de assisti-lo ciente de que eu estivera diante de uma das mais belas expressões artísticas da paixão. Recomendo!!!!! 


Amor à Flor da Pele ganhou em Cannes o prêmio de Melhor Ator (Tony Leung Chiu Wai ) e o Technical Grand Prize (pela edição e fotografia).

Assistam ao trailer de Amor à Flor da Pele no You Tube, clique AQUI !


quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Persépolis

5 de outubro, 19,30h



Persépolis foi inspirado no romance gráfico (HQ) autobiográfico homônimo da autora iraniana Marjane Satrapi. O filme foi dirigido pela autora em colaboração com o cartunista francês Vincent Paronnaud.
        “Marji” é a filha de oito anos de uma família iraniana de esquerda. Família culta, moderna e ocidentalizada, faz com que desde pequena Marji participe de todas as verdades sobre sua família e seu país, como quando o pai da garotinha lhe explica a realidade do governo do Xá, pois ela não entendia a revolta das pessoas, já que aprendera na escola que os xás foram “escolhidos por Deus”. Através da narrativa pessoal de Marji veremos a história, os costumes, as relações familiares e sociais no Irã no período de 1978 até os anos 90.
        Durante este período a história do Irã muda radicalmente e isso vem a interferir profundamente na vida dos iranianos e ainda mais na vida de nossa sensível protagonista. Desde os anos 40 o país é governando pela dinastia do Xá Reza Pahlavi (imperador), que tem apoio (e controle) dos EUA, por questões “petrolíficas”. A população descontente com tal situação ajuda que se propicie a Revolução Islãmica. Acontece a deposição do Xá e a posse do aiatolá Ruhollah Khomeini (chefe religioso). Antes o Irã era uma monarquia alinhada ao Ocidente, mas depois, sem a total consciência por todos disto, o país vem a se tornar uma brutal ditadura fundamentalista islâmica. Esse governo começou a controlar a vida de todos, no famoso e cruel estilo de governo que alia indissociavelmente política e religião. As mulheres são obrigadas a usarem a burca e impedidas de namorarem e qualquer vestígio de ocidente era banido e considerado como imoral.
        Marji vai descobrindo isto na vivência e nas conversas que há em sua casa, com a visita de pessoas como seu tio Annouche, um ex-preso político. A insegurança, o medo, o terror, pioram com a deflagração da guerra entre Irã e Iraque.
        A partir daí, então, que ela começa a viver os traumas da guerra, o autoritarismo do regime, tomando conhecimento das práticas de tortura, vendo a supressão da liberdade individual na educação na escola e no militarismo nas ruas. Assim, seus pais decidem então enviá-la para terminar seus estudos na Áustria. Ela vai para o país com um valioso conselho de sua admirável e feminista avó. Lá tem liberdade plena de ser e dizer que o pensa, faz amigos, descobre os bons e ruins do amor, erra e acerta. Depois de algum tempo, passado altos e baixos em sua estada na cultura ocidental de estado laico, num período cheio de descobertas e intensa vivencia, ela se sente uma alienada, exilada e retorna ao seu país e à sua família. De volta, ela e sua família vivem neste regime enganando as autoridades com coisas proibidas que lhes fizessem mais felizes, como festas e bebidas alcoólicas.
        As partes do filme em cores remetem ao presente, enquanto em preto em branco remetem ao passado, pois o principal faz parte do passado. O filme começa e encerra-se com Marjane em cores, já adulta, num aeroporto da França, com os olhos em Teerã, sua capital natal. Porém não consegue retornar, e volta de taxi, na eterna busca de uma vida melhor, mesmo tendo a nostalgia de sua infância com seus pais.
        Apesar de todo este conteúdo disfórico, com guerra, repressão, decepções, Marji dirige a narrativa com bastante humor ou até uma ironia risonha, que nos faz conhecer toda a história sem ser chata, acadêmica ou formal.    
    Como se pode ver, Persépolis trata de muitos temas. De tradições, educação, família, idealismos, choque de culturas, crescimento pessoal, liberdade, autoritarismo, repressão, política, religião, costumes, amores, ilusões e desilusões, heroísmo, revolução, raízes, comprometimento, lealdade, etc, mas, sobretudo dos absurdos praticados pela humanidade contra ela mesma, Persépolis nos demonstra a valorização da família, a busca da identidade própria e a necessidade de se buscar uma vida melhor. Tudo isso num realismo que só uma animação como essa poderia demonstrar.