segunda-feira, 4 de março de 2013

Paqualino Sete Belezas


Texto do prof. Marcos Silva, titular da História USP, a partir de sessão de 1o. de março do Cineclube Baixa Augusta.


Revi ontem o filme “Pasqualino sete belezas” (1975), de Lina Wertmüller, com Giancarlo Giannini. A onipresença do ator marca muito o filme. Há uma espécie de paródia crítica do latin lover, ao mesmo tempo em que o filme explora a profunda tensão entre expectativa de riso e medonha tragédia em andamento. Cenas patéticas reforçam a dor em cena.

A narrativa se dá numa Itália em guerra, sob o Fascismo. Pasqualino se pensa alheio à política, confessa admirar Mussolini, repete os chavões de propaganda fascista – controle sobre greves e desordens. Enquanto isso, o personagem se esmera em fazer o que esperam que ele faça, com uma imensa incapacidade para dizer não ao que dominam. Obedece ao chefão meio mafioso (vingar a honra da família, atingida pela irmã que se prostitui), obedece ao advogado que prostitui a irmã, obedece à médica no hospício, obedece à sádica comandante no campo de concentração.

O horror contra a prostituição da irmã tem por contrapartidas copular com uma louca totalmente amarrada numa cama do hospício e, por fim, prostituir-se para a comandante nazista que o despreza e trata sua ereção como mera demonstração em prol de sobrevivência.

Wertmüller opta por uma estética naturalista  de mostrar os piores horrores (interno do hospício emasculado, cadáveres aos montes no campo de concentração), embora aproxime-se do heroísmo romântico através do amigo de Pasqualino que pede para ser morto por ele diante de prisioneiros e carcereiros nazistas, bem como do velho anarquista que opta por se lançar numa medonha latrina à espera dos tiros que terminariam de matá-lo.

A diretora dialoga com a memória naturalista do Fascismo construída, dentre outros, por Curzio Malaparte (A pele), com a destruição de vestígios de humanidade operada pela guerra, incluindo a vasta prostituição que marca a presença norte-americana pós-Fascismo.

Pasqulino faz o que os outros esperam dele e, nisso, vai se destruindo passo a passo. Os planos finais do filme, com a imagem daquele homem partida num espelho do pós-guerra, mais a constatação de que está vivo, sugere uma possibilidade de mudança sem perder o conformismo: casar com a menina prostituída que um dia amou, não mais obedecer aos outros mas evocar o diagnóstico de um daqueles mártires românticos (o velho anarquista, que previa um mundo superpovoado, onde as pessoas se matariam por um pão ou uma maçã), esperar pela próxima catástrofe com alguma arma – a prole numerosa pretendida.

A herança de Pasqualino é uma infinita tristeza diante daquele passado narrado (o nazi-fascismo da destruição em escala industrial) mas também daquele presente em que o filme nasceu (ditaduras pelo mundo todo, um suposto socialismo sufocante, o nazi-fascismo em novas roupagens). Se houver alguma esperança é a desobediência pois a ordem destrutiva continua.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

SEGUNDA SESSÃO SURPRESA, PERO NO MUCHO

A primeira sessão surpresa do Baixa Augusta foi o duvidoso Rrrrr - Na idade da pedra. Isso porque só dois abnegados levaram filmes.

Rrrrr - NA IDADE DA PEDRA


35.000 A.C., em plena pré-história. A tribo dos Cabelos Limpos passa os dias de forma tranquila, guardando para si a fórmula secreta do xampu, enquanto que a tribo dos Cabelos Sujos passa o dia a se coçar e queixar. Até que um dia ocorre na tribo dos Cabelos Limpos o 1º crime da história da humanidade: a morte de uma mulher. Intrigados nos motivos que fariam alguém matar uma pessoa que morreria de qualquer forma, os integrantes da tribo tentam descobrir quem foi o autor do crime.

Dirigido por Alain Chabat
Gênero Comédia


Assim o duvidoso ficou para a primeira sessão, enquanto o SEM DÚVIDAS NENHUMA ficou para a sessão de 1o. de março, 19h30, quando também programaremos o semestre. A seguir, o filme que não causou nenhuma dúvida, pois todos menos um tinham assistido há tempos.

PASQUALINO SETE BELEZAS


Durante a segunda Guerra Mundial, Pasqualino Frafuso (Giancarlo Giannini), é um militar italiano desertor. Capturado pelos alemães ele é enviando para um campo de concentração, onde faz de tudo para tentar sobreviver. Em "flashbacks", ele lembra de suas sete irmãs (as sete belezas) e como cometeu um assassinato do amante de uma irmã. Lembra também de sua confissão e de sua prisão, sua calculada troca para um asilo e como decidiu voluntariamente ser um soldado para escapar da prisão. Pasqualino tem um caráter fraco e covarde, mas isso não impede de sobreviver na guerra e voltar a Nápoles, onde ele tem um plano para manter-se vivo até a próxima catástrofe mundial.

Título Original: Pasqualino Settebelezze
Tempo: 112
Cor: Colorido
Ano de Lançamento: 2010
Elenco: GIANCARLO GIANNINI & SHIRLEY STOLER & FERNANDO REY & ELENA FIORE
Direção: LINA WERTMULLER
Recomendação: 16 anos
Região do DVD: Multi-Região
Legendas: Português
Idiomas / Sistema de som:
Italiano -
Formato de tela: FullScreen
País de Orígem: Itália
1o. de março 
19h30

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

PRIMEIRA SESSÃO SURPRESA!


É HOJE!
22 DE FEVEREIRO DE 2013
19h30

Hoje, nossa primeira sessão surpresa! Traga seu DVD de um filme que você considera incrível, espetacular, extraordinário e corra o risco de vê-lo aprovado para todo mundo assistir e, eventualmente, elogiar seu extremo bom gosto em termos de sétima arte e otras cositas más.

Até o presente momento, ninguém se dispôs a revelar o que pretende apresentar como candidato à exibição na sessão de hoje, o que demonstra o espírito disciplinado dos rodamundos que aportam no cineclube Baixa Augusta de tempos em tempos com o propósito de assistir, discutir e às vezes se engalfinhar em defesa de diretores, atores, roteiristas, fotógrafos, sonoplastas etc., na esperança de que o cinema do mundo não se afunde na lama do fast food e do hambúrguer cultural.



terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

O céu sobre os ombros

Retomamos nossas atividades neste dia 15 de fevereiro, com o filme
 O céu sobre os ombros
www.oceusobreosombros.com
O filme conta a história de três pessoas anônimas, comuns. São histórias inventadas pela vida, pelos personagens, pelo filme, de pessoas que vivem num contexto entre o cotidiano, o exótico e a marginalidade. O filme é um gesto para revelar o quanto somos todos tão humanos, e quão semelhantes são nossos medos e desejos.

A narrativa acompanha alguns dias da vida de três personagens: Everlyn é uma transexual que fez mestrado sobre os diários de um hermafrodita do século XIX e vive entre a prostituição e os cursos de sexualidade que ministra como professora. Murari é um devoto da religião Hare Krishna e do time de futebol do Atlético Mineiro, líder de torcida organizada. Lwei é africano descendente de portugueses e escreve vários livros ao mesmo tempo, sem nunca ter chegado à conclusão de nenhum. Nunca trabalhou.

Apesar de não se conhecerem, vivem na mesma cidade, se relacionam com a escrita, tem cerca de 30 anos e famílias distantes. Eles não se encontram no filme, mas constantemente seus desejos e seus medos se cruzam, se interpenetram e criam uma rede de perguntas e respostas, de posicionamentos distintos e afins.

FICHA TÉCNICA
O Céu Sobre os Ombros
71min | 35mm | cor | 2010
Direção: Sérgio Borges
Elenco: Everlyn Barbin, Edjucu Moio, Murari Krishna e Grace Passô
Produzido por: Helvécio Marins Jr., Sérgio Borges , Luana Melgaço e Felipe Duarte
Produtora Associada: Primo Filmes
Produção Executiva: Luana Melgaço
Direção: Sérgio Borges
Fotografia: Ivo Lopes Araújo
Montagem: Ricardo Pretti
Roteiro: Manuela Dias e Sérgio Borges
Parceria Artística: Clarissa Campolina
Pesquisa de personagens: Izadora Fernandes
Direção de Produção: Mariana Freitas
Som direto: Bruno Vasconcelos
Edição de som: Gustavo Fioravante
Mixagem de som: Ronaldo Gino
Assistente de direção: Aline X
Finalização de Imagem: CinePro
Assistente de fotografia e som: Bernard MachadoAssistente de produção: Diogo LisboaFinalização de Imagem: CineProAssessoria Jurídica e contábil: Diana GebrimProjeto gráfico: Três design e Fred Paulino
Site: três design
Distribuição Nacional: Vitrine FilmesDistribuição internacional/World Sales: FiGa Films


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A exibição transcorreu sem maiores incidentes, todavia o debate quase chega às vias de fato, com gente saindo pisando duro sem mais aquela, enquanto outros, sobe o álibi "gente, estou passado", enganchou vários golpes de esquerda, jabs e outros lances do bom, velho e saudável cineclubismo. A pancadaria verbal prosseguiu bares abaixo na baixa Augusta que, afinal de contas, foi feita para tanto ou mais.

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Nas duas próximas sextas feiras , 22 de fevereiro e 1o. de março, serão realizadas SESSÕES-SURPRESA. Cada um leva um DVD em bom estado de  um filme que deseja ver. Na ora, no calor da discussão, será escolhido o filme a ser exibido. A escolha será ou por sorteio, ou por voto, pela força bruta ou por força das circunstâncias.

SEMPRE NO MESMO ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA, SALA DE CURSO, ÀS 19,30 H.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Meow e outros curtas brasileiros


NESTA SEXTA
7 de dezembro
ÚLTIMA SESSÃO DO BAIXA AUGUSTA ESTE ANO
Não há como negar: Meow, Animação de Marcos Magalhães,  é um marco na história do cinema de Animação Brasileiro.

A história do gatinho que se rende ao charme da publicidade para deixar de tomar leite é um ponto de referência para muitos animadores, animaníacos, professores e fãs do cinema. Tanto é que, em 1982 ganhou o prêmio especial do Juri no Festival internacional do Cinema de Cannes. Um dos mais aclamados festivais de cinema do mundo.



O curta de animação “Meow”, de Marcos Magalhães, produzido em 1981, me fez lembrar duas referências, uma histórica e outra cultural: a primeira sendo o boicote aos produtos britânicos em protesto empreendido por Mahatma Gandhi em defesa do uso entre os seus conterrâneos de vestimentas a base de algodão, o que contrariava os interesses da crescente e poderosa indústria têxtil inglesa que dominava seu país, a Índia; O outro, subsídio cultural surgido depois do lançamento desse curta de Magalhães, é a música dos Titãs, “Comida”, na qual em algumas estrofes vemos as seguintes frases... “Você tem fome de que? Você tem sede de que?”.

E qual é a relação entre a animação “Meow” e essas duas referências tiradas do baú por mim? Em primeiro lugar é importante destacar que a obra de Marcos Magalhães parece, a princípio, datada, ou seja, fruto de uma época. Não é. Logicamente essa produção espelha idéias que naquele início de década de 1980 estavam em voga, motivadas em particular pela batalha ideológica que se travava entre capitalistas e socialistas, aliados dos Estados Unidos e simpatizantes da União Soviética.

Mas não creio que esse documento audiovisual seja datado. Penso que há ainda bastante atualidade em suas idéias, em especial no que se refere à crítica evidente em relação à aculturação de países mais pobres, subdesenvolvidos ou em crescimento, com a substituição dos valores de suas culturas originais pelos estandartes dos países dominantes, situação essa que hoje em dia ainda persiste e que é identificada como conseqüência, sem contra-indicações, da globalização.

Outro aspecto que salta aos olhos e que pode ser utilizado como elemento de reflexão e debate é a substituição do leite pela “soda” (refrigerante) como alimento do personagem principal, o gato. Devendo-se também adicionar a essa reflexão o fato do gato miar em língua estrangeira... Os sons por ele emitidos não são escritos no tradicional “miau” da língua portuguesa e sim, no modelo identificado a partir do idioma de Shakespeare, o inglês, estando grafado como “meow”, inclusive no título...

A comparação com Gandhi e com a música “Comida”, dos Titãs, caminha, portanto, nessa trilha, ou seja, a da imposição evidente de valores, práticas, produtos, ações e até mesmo de uma linguagem estrangeirizada, um tanto quanto alienígena aos princípios e bases das civilizações que recebem essas influências e que, mobilizadas pela força do capital, da mídia, dos interesses políticos e do poder das corporações, pouco ou nada pode fazer para resistir...

Por João Luís de Almeida Machado, que viveu os anos da guerra ideológica entre EUA e URSS e percebe que os resquícios daquela época ainda estão por aqui...



quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Jonas, que terá 25 anos no ano 2000

NESTA SEXTA, 30 DE NOVEMBRO, SESSÃO ESPECIAL NO CINECLUBE BAIXA AUGUSTA

Jonas Qui Aura 25 Ans en l'an 2000 - França - 1976
Direção: Alain Tanner
Elenco: Jean-Luc Bideau, Rufus, Miou-Miou, Jacques Denis, Dominique Labourier.


SINOPSE 1
Há oito personagens principais em Jonas, todos na casa dos vinte ou trinta anos, e todos buscando soluções para os problemas trazidos para a consciência geral pelos eventos de 1968. Nenhum deles é um burguês confortável, eles são o tipo de fantasistas e obsessivos que eram considerados marginais antes de 1968 ... Cada um dos oito personagens é uma utopia de algum tipo, exceto para o antigo ativista desiludido, Max...
(http://artecinemafilme.blogspot.com.br/2010/05/dvd-jonas-que-tera-25-anos-no-ano-2000.html)

*     *     *
SINOPSE 2
O filme segue a vida de um grupo de 8 pessoas, na sequência da agitação social e política de maio de 1968 na França, incluindo um professor de história, um sindicalista e um boêmio.

Importância Histórica: O diretor Alain Tanner é um dos fundadores do “Groupe Cinque”, que reuniu jovens cineastas suíços no início dos anos 60, influenciados pela NOUVELLE VAGUE. Realizador de vários filmes consagrados pela crítica, em 1976 ele realizou “Jonas” revelando a expectativa de uma geração desiludida com o seu passado e que não sabia o que esperar de um novo século que se aproximava. Política, questionamentos e muitas dúvidas são os elementos básicos dos oito personagens deste filme que foi exibido em Belém no final dos anos 70 e foi eleito um dos melhores do ano que foi exibido.
(http://www.belemweb.com.br/impressao_conteudo.asp?id=14194&pagina=28)


quarta-feira, 21 de novembro de 2012

CURTAS RUSSOS


23 DE NOVEMBRO - SEXTA-FEIRA - 19 horas - Incluindo O VELHO E O MAR:
Adaptado do romance de Ernest Hemingway, é um curta de 22 minutes, lançado em 1999 por Alexandre PetrovAlém deste, teremos outras animações russas.

"Eu já havia lido o livro há bastante tempo, e fiquei apaixonado pela obra. Decidi que um dia iria fazer o filme", contou o diretor Petrov. A produção não usa computação gráfica e levou dois anos, mais um ano de montagem. A técnica é impressionante e impressionista. Cada quadro do filme é uma obra de arte pintada a base de tinta siliconada sobre vidro. As mudanças para os quadros seguintes são repintadas no próprio vidro ou numa outra camada, detalhadamente. Os fadings, por exemplo, foram realizados pela maior ou menor exposição dessas telas vitrais à luz. As camadas sobrepostas na mesa de luz geraram imagens que foram fixadas em película de 70 mm, muito maior que as de 35 mm ou 16 mm, geralmente usadas para cinema, resultando num visual dos movimentos e cenários muito mais luminosos e impactantes (nos EUA, o filme foi projetado em cinemas de telas especiais, para garantir o impacto da técnica integralmente, o que não ocorrerá no Brasil). A pena é que cada uma dessas majestosas cenas teve vida efêmera – sobreviveu somente para compôr as cenas e nada mais. A montagem e dublagem foi feita em 1998 e, no ano seguinte, no centenário do escritor americano, Petrov presenteou o mundo com sua obra.

Segundo ele, o mais difícil na produção não foi de fato a arte. "Eu não queria sair do que o autor escreveu, mas queria, ao mesmo tempo, colocar algo da minha linguagem no roteiro. Essa foi a maior tarefa: adaptar a história do livro para o filme", disse o diretor. Desse modo, há no filme, assim como no livro, o prelúdio do Velho conversando com o garoto Santiago sobre sua derrocada depois de idoso. E a história é conduzida pelas elocubrações do Velho em alto mar e seu "diálogo" com o peixe resistente, acompanhada pelos seus encantos visuais, seus sonhos, e suas recordações da juventude.

John Sturges, que dirigiu Spencer Tracy como o Velho em 1958 na primeira adaptação do clássico para o cinema, e a produção televisiva que contou com Anthony Quinn como protagonista em 1990, não conseguiram dar tamanho lirismo ao trabalho do escritor americano. Nada se compara e, ainda que a tecnologia cinematográfica avance a cada ano, parece pouco provável que alguém consiga realizar o que Petrov realizou.