PROGRAMAÇÃO DE DEBATES - BAIXA AUGUSTA – 1º. SEMESTRE - 2013
DATA
ASSUNTO
ESTUDO
22/03
Tarantino
Filmografia sua e de sua geração
26/04
Nelson Pereira dos Santos
O cinema brasileiro até Vidas Secas
24/05
Fellini
O cinema italiano até o neorrealismo
21/06
Leon Hirszman
O cinema brasileiro até a década de 1980
26/07
Fritz Lang
O cinema alemão ontem e hoje
LOCAL
Bar ESPETÃO
R. Frei Caneca, 1395 – Perto da av. Paulista.
HORÁRIO
20 HORAS
Sempre às sextas-feiras
A ideia é durante o mês assistirmos aos filmes e estudarmos o diretor
em destaque, suas obras mais significativas e sua geração de cineastas, de
maneira a compor um bom painel autoral e de época, em que cinema, história e
política sejam articulados de maneira produtiva.
Em razão de a sala do Espaço Itaú estar em reforma, realizaremos um
ciclo de debates a partir de filmografias de diretores.
Nos seus primórdios, a atividade cineclubista era também assim
realizada: grupos de amigos iam junto a uma sessão e depois compartilhavam a
discussão onde era possível: cafés, livrarias, residências particulares etc.
Vou postar no blog o texto do Marcos sobre o Pasqualino Sete Belezas,
depois, algo sobre o Tarantino, a bola da vez, para irmos discutindo antes do
dia 22/03, quando iniciamos uma nova-antiga prática cineclusbista.
Texto do prof. Marcos Silva, titular da História USP, a partir de sessão de 1o. de março do Cineclube Baixa Augusta.
Revi ontem o filme “Pasqualino sete belezas” (1975), de Lina
Wertmüller, com Giancarlo Giannini. A onipresença do ator marca muito o filme.
Há uma espécie de paródia crítica do latin lover, ao mesmo tempo em que o filme
explora a profunda tensão entre expectativa de riso e medonha tragédia em
andamento. Cenas patéticas reforçam a dor em cena.
A narrativa se dá numa Itália em guerra, sob o Fascismo.
Pasqualino se pensa alheio à política, confessa admirar Mussolini, repete os
chavões de propaganda fascista – controle sobre greves e desordens. Enquanto
isso, o personagem se esmera em fazer o que esperam que ele faça, com uma
imensa incapacidade para dizer não ao que dominam. Obedece ao chefão meio
mafioso (vingar a honra da família, atingida pela irmã que se prostitui),
obedece ao advogado que prostitui a irmã, obedece à médica no hospício, obedece
à sádica comandante no campo de concentração.
O horror contra a prostituição da irmã tem por
contrapartidas copular com uma louca totalmente amarrada numa cama do hospício
e, por fim, prostituir-se para a comandante nazista que o despreza e trata sua
ereção como mera demonstração em prol de sobrevivência.
Wertmüller opta por uma estética naturalista de
mostrar os piores horrores (interno do hospício emasculado, cadáveres aos
montes no campo de concentração), embora aproxime-se do heroísmo romântico
através do amigo de Pasqualino que pede para ser morto por ele diante de
prisioneiros e carcereiros nazistas, bem como do velho anarquista que opta por
se lançar numa medonha latrina à espera dos tiros que terminariam de matá-lo.
A diretora dialoga com a memória naturalista do Fascismo
construída, dentre outros, por Curzio Malaparte (A pele), com a destruição de
vestígios de humanidade operada pela guerra, incluindo a vasta prostituição que
marca a presença norte-americana pós-Fascismo.
Pasqulino faz o que os outros esperam dele e, nisso, vai se
destruindo passo a passo. Os planos finais do filme, com a imagem daquele homem
partida num espelho do pós-guerra, mais a constatação de que está vivo, sugere
uma possibilidade de mudança sem perder o conformismo: casar com a menina
prostituída que um dia amou, não mais obedecer aos outros mas evocar o
diagnóstico de um daqueles mártires românticos (o velho anarquista, que previa
um mundo superpovoado, onde as pessoas se matariam por um pão ou uma maçã),
esperar pela próxima catástrofe com alguma arma – a prole numerosa pretendida.
A herança de Pasqualino é uma infinita tristeza diante
daquele passado narrado (o nazi-fascismo da destruição em escala industrial)
mas também daquele presente em que o filme nasceu (ditaduras pelo mundo todo,
um suposto socialismo sufocante, o nazi-fascismo em novas roupagens). Se houver
alguma esperança é a desobediência pois a ordem destrutiva continua.
A primeira sessão surpresa do Baixa Augusta foi o duvidoso Rrrrr - Na idade da pedra. Isso porque só dois abnegados levaram filmes.
Rrrrr - NA IDADE DA PEDRA
35.000 A.C.,
em plena pré-história. A tribo dos Cabelos Limpos passa os dias de forma
tranquila, guardando para si a fórmula secreta do xampu, enquanto que a tribo
dos Cabelos Sujos passa o dia a se coçar e queixar. Até que um dia ocorre na
tribo dos Cabelos Limpos o 1º crime da história da humanidade: a morte de uma
mulher. Intrigados nos motivos que fariam alguém matar uma pessoa que morreria
de qualquer forma, os integrantes da tribo tentam descobrir quem foi o autor do
crime.
Assim o duvidoso ficou para a primeira sessão, enquanto o SEM DÚVIDAS NENHUMA ficou para a sessão de 1o. de março, 19h30, quando também programaremos o semestre. A seguir, o filme que não causou nenhuma dúvida, pois todos menos um tinham assistido há tempos.
PASQUALINO SETE BELEZAS
Durante a segunda Guerra Mundial, Pasqualino Frafuso (Giancarlo
Giannini), é um militar italiano desertor. Capturado pelos alemães ele é
enviando para um campo de concentração, onde faz de tudo para tentar
sobreviver. Em "flashbacks", ele lembra de suas sete irmãs (as sete
belezas) e como cometeu um assassinato do amante de uma irmã. Lembra também de
sua confissão e de sua prisão, sua calculada troca para um asilo e como decidiu
voluntariamente ser um soldado para escapar da prisão. Pasqualino tem um caráter
fraco e covarde, mas isso não impede de sobreviver na guerra e voltar a
Nápoles, onde ele tem um plano para manter-se vivo até a próxima catástrofe
mundial.
Título Original: Pasqualino Settebelezze
Tempo: 112
Cor: Colorido
Ano de Lançamento: 2010
Elenco: GIANCARLO GIANNINI & SHIRLEY STOLER & FERNANDO REY
& ELENA FIORE
Hoje, nossa primeira sessão surpresa! Traga seu DVD de um
filme que você considera incrível, espetacular, extraordinário e corra o risco
de vê-lo aprovado para todo mundo assistir e, eventualmente, elogiar seu
extremo bom gosto em termos de sétima arte e otras cositas más.
Até o presente momento, ninguém se dispôs a revelar o que
pretende apresentar como candidato à exibição na sessão de hoje, o que
demonstra o espírito disciplinado dos rodamundos que aportam no cineclube Baixa
Augusta de tempos em tempos com o propósito de assistir, discutir e às vezes se
engalfinhar em defesa de diretores, atores, roteiristas, fotógrafos, sonoplastas
etc., na esperança de que o cinema do mundo não se afunde na lama do fast food e do hambúrguer cultural.
Retomamos nossas atividades neste dia 15 de fevereiro, com o filme
O céu sobre os ombros www.oceusobreosombros.com
O filme conta a história de três pessoas anônimas,
comuns. São histórias inventadas pela vida, pelos personagens, pelo filme, de
pessoas que vivem num contexto entre o cotidiano, o exótico e a marginalidade.
O filme é um gesto para revelar o quanto somos todos tão humanos, e quão
semelhantes são nossos medos e desejos.
A narrativa acompanha alguns dias da vida de três
personagens: Everlyn é uma transexual que fez mestrado sobre os diários de um
hermafrodita do século XIX e vive entre a prostituição e os cursos de
sexualidade que ministra como professora. Murari é um devoto da religião Hare
Krishna e do time de futebol do Atlético Mineiro, líder de torcida organizada.
Lwei é africano descendente de portugueses e escreve vários livros ao mesmo
tempo, sem nunca ter chegado à conclusão de nenhum. Nunca trabalhou.
Apesar de não se conhecerem, vivem na mesma cidade, se
relacionam com a escrita, tem cerca de 30 anos e famílias distantes. Eles não
se encontram no filme, mas constantemente seus desejos e seus medos se cruzam,
se interpenetram e criam uma rede de perguntas e respostas, de posicionamentos
distintos e afins.
FICHA TÉCNICA
O Céu Sobre os Ombros
71min | 35mm | cor | 2010
Direção: Sérgio Borges
Elenco: Everlyn Barbin, Edjucu Moio, Murari Krishna e Grace Passô
Produzido por: Helvécio Marins Jr., Sérgio Borges , Luana Melgaço e Felipe Duarte
Produtora Associada: Primo Filmes
Produção Executiva: Luana Melgaço
Direção: Sérgio Borges
Fotografia: Ivo Lopes Araújo
Montagem: Ricardo Pretti
Roteiro: Manuela Dias e Sérgio Borges
Parceria Artística: Clarissa Campolina
Pesquisa de personagens: Izadora Fernandes
Direção de Produção: Mariana Freitas
Som direto: Bruno Vasconcelos
Edição de som: Gustavo Fioravante
Mixagem de som: Ronaldo Gino
Assistente de direção: Aline X
Finalização de Imagem: CinePro
Assistente de fotografia e som: Bernard MachadoAssistente
de produção: Diogo LisboaFinalização de Imagem: CineProAssessoria
Jurídica e contábil: Diana GebrimProjeto gráfico: Três design e Fred
Paulino
Site: três design
Distribuição Nacional: Vitrine FilmesDistribuição internacional/World
Sales: FiGa Films
* * *
A exibição transcorreu sem maiores incidentes, todavia o debate quase chega às vias de fato, com gente saindo pisando duro sem mais aquela, enquanto outros, sobe o álibi "gente, estou passado", enganchou vários golpes de esquerda, jabs e outros lances do bom, velho e saudável cineclubismo. A pancadaria verbal prosseguiu bares abaixo na baixa Augusta que, afinal de contas, foi feita para tanto ou mais.
* * *
Nas duas próximas sextas feiras , 22 de fevereiro e 1o. de março, serão realizadas SESSÕES-SURPRESA. Cada um leva um DVD em bom estado de um filme que deseja ver. Na ora, no calor da discussão, será escolhido o filme a ser exibido. A escolha será ou por sorteio, ou por voto, pela força bruta ou por força das circunstâncias.
SEMPRE NO MESMO ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA, SALA DE CURSO, ÀS 19,30 H.
Não há como negar: Meow, Animação de Marcos
Magalhães, é um marco na história do cinema de Animação Brasileiro.
A história do gatinho que se rende ao charme da publicidade
para deixar de tomar leite é um ponto de referência para muitos animadores,
animaníacos, professores e fãs do cinema. Tanto é que, em 1982 ganhou o prêmio
especial do Juri no Festival internacional do Cinema
de Cannes. Um dos mais aclamados festivais de cinema do
mundo.
O curta de animação “Meow”, de Marcos Magalhães, produzido
em 1981, me fez lembrar duas referências, uma histórica e outra cultural: a
primeira sendo o boicote aos produtos britânicos em protesto empreendido por
Mahatma Gandhi em defesa do uso entre os seus conterrâneos de vestimentas a
base de algodão, o que contrariava os interesses da crescente e poderosa
indústria têxtil inglesa que dominava seu país, a Índia; O outro, subsídio
cultural surgido depois do lançamento desse curta de Magalhães, é a música dos
Titãs, “Comida”, na qual em algumas estrofes vemos as seguintes frases... “Você
tem fome de que? Você tem sede de que?”.
E qual é a relação entre a animação “Meow” e essas duas
referências tiradas do baú por mim? Em primeiro lugar é importante destacar que
a obra de Marcos Magalhães parece, a princípio, datada, ou seja, fruto de uma
época. Não é. Logicamente essa produção espelha idéias que naquele início de
década de 1980 estavam em voga, motivadas em particular pela batalha ideológica
que se travava entre capitalistas e socialistas, aliados dos Estados Unidos e
simpatizantes da União Soviética.
Mas não creio que esse documento audiovisual seja datado.
Penso que há ainda bastante atualidade em suas idéias, em especial no que se
refere à crítica evidente em relação à aculturação de países mais pobres,
subdesenvolvidos ou em crescimento, com a substituição dos valores de suas culturas
originais pelos estandartes dos países dominantes, situação essa que hoje em
dia ainda persiste e que é identificada como conseqüência, sem
contra-indicações, da globalização.
Outro aspecto que salta aos olhos e que pode ser utilizado
como elemento de reflexão e debate é a substituição do leite pela “soda”
(refrigerante) como alimento do personagem principal, o gato. Devendo-se também
adicionar a essa reflexão o fato do gato miar em língua estrangeira... Os sons
por ele emitidos não são escritos no tradicional “miau” da língua portuguesa e
sim, no modelo identificado a partir do idioma de Shakespeare, o inglês,
estando grafado como “meow”, inclusive no título...
A comparação com Gandhi e com a música “Comida”, dos Titãs,
caminha, portanto, nessa trilha, ou seja, a da imposição evidente de valores,
práticas, produtos, ações e até mesmo de uma linguagem estrangeirizada, um
tanto quanto alienígena aos princípios e bases das civilizações que recebem
essas influências e que, mobilizadas pela força do capital, da mídia, dos
interesses políticos e do poder das corporações, pouco ou nada pode fazer para
resistir...
Por João Luís de Almeida Machado, que viveu os anos da
guerra ideológica entre EUA e URSS e percebe que os resquícios daquela época
ainda estão por aqui...
NESTA SEXTA, 30 DE NOVEMBRO, SESSÃO ESPECIAL NO CINECLUBE BAIXA AUGUSTA
Jonas Qui
Aura 25 Ans en l'an 2000 - França - 1976
Direção:
Alain Tanner
Elenco:
Jean-Luc Bideau, Rufus, Miou-Miou, Jacques Denis, Dominique Labourier.
SINOPSE 1
Há oito
personagens principais em Jonas, todos na casa dos vinte ou trinta anos, e
todos buscando soluções para os problemas trazidos para a consciência geral
pelos eventos de 1968. Nenhum deles é um burguês confortável, eles são o tipo
de fantasistas e obsessivos que eram considerados marginais antes de 1968 ...
Cada um dos oito personagens é uma utopia de algum tipo, exceto para o antigo
ativista desiludido, Max...
O filme
segue a vida de um grupo de 8 pessoas, na sequência da agitação social e
política de maio de 1968 na França, incluindo um professor de história, um
sindicalista e um boêmio.
Importância
Histórica: O diretor Alain Tanner é um dos fundadores do “Groupe Cinque”, que
reuniu jovens cineastas suíços no início dos anos 60, influenciados pela
NOUVELLE VAGUE. Realizador de vários filmes consagrados pela crítica, em 1976
ele realizou “Jonas” revelando a expectativa de uma geração desiludida com o
seu passado e que não sabia o que esperar de um novo século que se aproximava.
Política, questionamentos e muitas dúvidas são os elementos básicos dos oito
personagens deste filme que foi exibido em Belém no final dos anos 70 e foi
eleito um dos melhores do ano que foi exibido.