NESTA SEXTA
7 de dezembro
ÚLTIMA SESSÃO DO BAIXA AUGUSTA ESTE ANO
Não há como negar: Meow, Animação de Marcos
Magalhães, é um marco na história do cinema de Animação Brasileiro.
A história do gatinho que se rende ao charme da publicidade
para deixar de tomar leite é um ponto de referência para muitos animadores,
animaníacos, professores e fãs do cinema. Tanto é que, em 1982 ganhou o prêmio
especial do Juri no Festival internacional do Cinema
de Cannes. Um dos mais aclamados festivais de cinema do
mundo.
O curta de animação “Meow”, de Marcos Magalhães, produzido
em 1981, me fez lembrar duas referências, uma histórica e outra cultural: a
primeira sendo o boicote aos produtos britânicos em protesto empreendido por
Mahatma Gandhi em defesa do uso entre os seus conterrâneos de vestimentas a
base de algodão, o que contrariava os interesses da crescente e poderosa
indústria têxtil inglesa que dominava seu país, a Índia; O outro, subsídio
cultural surgido depois do lançamento desse curta de Magalhães, é a música dos
Titãs, “Comida”, na qual em algumas estrofes vemos as seguintes frases... “Você
tem fome de que? Você tem sede de que?”.
E qual é a relação entre a animação “Meow” e essas duas
referências tiradas do baú por mim? Em primeiro lugar é importante destacar que
a obra de Marcos Magalhães parece, a princípio, datada, ou seja, fruto de uma
época. Não é. Logicamente essa produção espelha idéias que naquele início de
década de 1980 estavam em voga, motivadas em particular pela batalha ideológica
que se travava entre capitalistas e socialistas, aliados dos Estados Unidos e
simpatizantes da União Soviética.
Mas não creio que esse documento audiovisual seja datado.
Penso que há ainda bastante atualidade em suas idéias, em especial no que se
refere à crítica evidente em relação à aculturação de países mais pobres,
subdesenvolvidos ou em crescimento, com a substituição dos valores de suas culturas
originais pelos estandartes dos países dominantes, situação essa que hoje em
dia ainda persiste e que é identificada como conseqüência, sem
contra-indicações, da globalização.
Outro aspecto que salta aos olhos e que pode ser utilizado
como elemento de reflexão e debate é a substituição do leite pela “soda”
(refrigerante) como alimento do personagem principal, o gato. Devendo-se também
adicionar a essa reflexão o fato do gato miar em língua estrangeira... Os sons
por ele emitidos não são escritos no tradicional “miau” da língua portuguesa e
sim, no modelo identificado a partir do idioma de Shakespeare, o inglês,
estando grafado como “meow”, inclusive no título...
A comparação com Gandhi e com a música “Comida”, dos Titãs,
caminha, portanto, nessa trilha, ou seja, a da imposição evidente de valores,
práticas, produtos, ações e até mesmo de uma linguagem estrangeirizada, um
tanto quanto alienígena aos princípios e bases das civilizações que recebem
essas influências e que, mobilizadas pela força do capital, da mídia, dos
interesses políticos e do poder das corporações, pouco ou nada pode fazer para
resistir...
Por João Luís de Almeida Machado, que viveu os anos da
guerra ideológica entre EUA e URSS e percebe que os resquícios daquela época
ainda estão por aqui...
SINOPSE: PLANETA EDUCAÇÃO